domingo, 10 de agosto de 2014

O pai que me aconteceu

Então, dia dos pais. Tive mais de um pai na mesma pessoa. O que nele era mais comum era o incomum. Sabia olhar e ver com olhos de poesia. Também sabia fazer fotografias com as palavras. Pinturas. Filmes. E generosamente compartilhava. Nas terras da infância, passeando de fusca com o rádio ligado, de repente, no meio de uma música, meu pai nos presenteava, olha isso:"a porta do barraco era sem trinco, e a lua furando nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão", isso é lindo! E aquela lua furava o carro e salpicava estrelas na gente...

Uma noite, ele já não mais dirigia, o levei pra passear. Íamos por uma avenida longa, dessas com os postes de iluminação no canteiro do meio. Nós dois calados. Meu pai abriu suavemente o embrulhinho do silêncio e com o entusiasmo que lhe habitava, mas é uma cobra de luz! Desde então, clareia meu caminho na noite uma imensa cobra de luz. 


Ano passado, ficou bem fraquinho. Hospital. UTI. Enquanto ainda falava, me perguntou, até quando a gente entra na floresta? Pensei um pouco e não consegui nem entender direito a pergunta. Não sei, pai. E ele, até a metade... Aí a matemática me alcançou e falamos juntos, depois a gente já começa a sair. Com os olhos fechados, deu um sorrisinho. Oito dias depois, saiu.


De herança me deixou porta aberta, e sem trinco, para a poesia...


sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A palavra vale sem o celular?


Terça feira à noite um amigo disse que hoje viria almoçar na minha casa. Providenciei almoço especial. Ao meio dia de hoje, liguei pra ele. Tinha se esquecido. Desconfiei que não viria porque não tinha me ligado pelo celular depois de terça feira. 

Há umas duas semanas, combinei com uma amiga que lhe emprestaria meu frequencímetro (aquele negócio de medir a frequencia cardíaca enquanto a gente malha). Quando fui ao seu encontro, levando o tal o frequencímetro, ela já tinha comprado o seu e não me avisou que não precisava mais. Essa foi a segunda vez. A primeira, pediu faca de presente de aniversário e quando, já na loja, liguei pra ela pra escolher qual a de sua preferencia, ai fá, já ganhei as facas e esqueci de avisar...

Bom, tirando a hipótese de que não sou importante pra meus amigos, tenho visto cada vez mais a palavra dita, antes de chegar ao ouvido de quem escuta, já sair da boca de quem fala com prazo de validade vencido. O que se fala são só palavras nada mais que palavras? Gente, sinto-me tão minoria nesse mundo em que o combinado só vale com o carimbo de uma ligação ou mensagem de celular pra confirmar o que foi dito pessoalmente...  Cadê a memória e a consideração pela palavra dada? Ou a consideração pelo outro que ainda acredita em nós?

Mas esses são só exemplos mais recentes... A palavra não vale? 

Quero começar um movimento: A palavra VALE (OURO!). Não vai dar? Avise pelo celular. Agora, combinou? Tá combinado!