domingo, 20 de julho de 2014

Eis-Cada


São muitos anos de convivência. Os (quase) seis mais recentes - não quero usar a palavra últimos - em cidades diferentes. Em cada re-encontro descubro, com minha visão cada vez mais acurada pela velhice - sim, não estou falando da visão que mora nos olhos da cara... - , novas coisas sobre o conviver. Minúsculas revelações. Descobri que morando sós vamos ficando com algumas manias. Uma delas é fazer as coisas exclusivamente do nosso jeito... Aí... esta semana ele veio passar o final de semana. Ia mandar umas coisas pra a mãe que mora em outra cidade. Correios: aí vamos nós. E a caminho dos correios vieram os nós. Paralela Shopping. Estacionamos o carro. Rolamos escada a cima - escada rolante, gente. Chegamos ao andar dos correios.  Ele carregando uma caixa gigante. Eu sabia o caminho mais próximo. Ele sabia por onde queria ir: sempre em frente. Eu, achando que o melhor era conduzí-lo para que não carregasse tanto peso por tanto tempo, indiquei um atalho pela esquerda. Ele deu uma rosnadinha, deixa eu ir por aqui... Um pedacinho de mim quis se ofender, mas só estou querendo ajudar... Pensei e não falei, já conheço esse alistamento espontâneo e automático no exército do inferno que mais cresce: os bem intencionados. Nisso, escutei uma vozinha falando no fundo de mim, se fosse eu, não ia por aí, ia por aqui. A velha pegou o microfone e, SE, SE, SE-FOS-SE-EU, não é você e você quer que ele faça do seu jeito? Como não ouvir? Ouvi e captei. Disse a ele que ia subir mais um andar pra cuidar da minha lista de tarefas no shopping, marcamos um ponto de encontro e nos separamos. Rolando de novo escada a cima lembrei de um antigo professor de matemática, duas linhas paralelas se encontram no infinito. Confiei! Dali a meia hora, descendo juntos as esCADAs rolou esse encontro e o infinito... 

sábado, 5 de julho de 2014

Escutando de n'Ovo


Nesta mesma época, no ano passado, meu pai vivia seus últimos dias. Estou um tanto nostálgica e me pego pensando e sentindo muitas coisas que não vou dizer de novo porque nada têm de novo. Vou 'pular' todas as cenas, menos uma. 

Era noite, fui com minha filha ao hospital. Ficamos bastante tempo na UTI com meu pai. Ele cheio de aparelhos pelo corpo e um tubo na boca que lhe ajudava a respirar e o impedia de falar. Ouvia bem e se comunicava com os olhos  e pelo movimento da cabeça - sim e não.  (isso parece tão pouco, mas quando só se tem isso... é tanto!). Bem tarde, saímos. O largo corredor do hospital era quase infinito com seu chão xadrez preto e branco. Andávamos de mãos dadas, mas cada uma na própria bolha de silêncio. Pensei em voz murmurada, o corpo é tão frágil... E minha filha respondeu, estava aqui pensando o contrário, como o corpo é forte e, apesar de tudo, meu avô está vivo. Concordei.  

De fato, meu pai estava vivo, muito vivo, embaixo daquele monte de fios, aparelhos bipantes, tubo, cobertores, daqueles braços paralizados, daqueles pés gelados e daquele barulho de fole da máquina de hemodiálise. Estava vivo e usava com toda sua força a possibilidade de nos olhar nos olhos e sacudir a cabeça num vigoroso NÃO quando alguém ensaiava o assunto do 'descanse em paz'. 

O que pensei em voz murmurada, no corredor de chão xadrez, não falava de meu pai. Falava de mim, e do extremo cansaço que tomava meu corpo. Talvez, apesar de tudo, meu pai estivesse mais forte e mais vivo que eu. Hoje, nostalgicamente relembrando, escutei isso na fala de minha filha. E concordei. Novamente.