terça-feira, 30 de dezembro de 2014

um escrito antiiigo


Era 31 de Dezembro em meu quarto. Nada de muvuca. Resolvi ficar só e meditar. Faltava pouco para a mais escura das horas, apanhei a vela. Pela janela entrava a animação das folhas sacudidas por vento tão forte que parecia chuva. Não podia imaginar o que viria. De repente... fez-se no quarto um tão grande e misterioso silêncio que me curvei instintivamente numa reverência. Um estalido no chão de madeira quebrou a redoma do silêncio. Olhei. Lá estava Ela com Seus longos cabelos soltos como um manto sobre o corpo. O Seu rosto parecia bem jovem, e nos olhos trazia aquele olhar dos que não perdem a esperança. Nada dizia. Estendeu-me a mão direita, aberta. Sobre a palma, uma minúscula cesta. Seus lábios não se moveram, mas escutei Sua voz, suave como mãe que canta para embalar os filhos,
- Rogo-lhe que cuide deles.
E eu, atordoada, sem saber exatamente o que fazia, recebi aquela pequenina cesta entre meus dedos. Senti que era tenra e macia feito a pele dos começos. Intrigada, perguntei,
- Mas, quem é você? O que é isto que me oferece? E o que me pede...?
- Por ora, lhe direi que sou a Mãe dos dias. Nessa cestinha, que é uma parte do meu útero, estão os filhos meus - os dias deste ano que está para chegar...
Interrompi Sua fala com outra pergunta, tentando me situar diante do misterium tremendum,
- Aqui dentro estão trezentos e sessenta e cinco dias?!! E são tão pequenos assim?!!
Ela manteve a calma e, sem tirar Seu olhar de dentro do meu, disse,
- É que ainda não nasceram... Mas, nascerão. Cada um na sua hora. Cuide deles... Cuide deles e ensine-os que a Vida é um pedaço de tempo. O tempo de numa gota experimentar o Oceano.  
         Eu só conseguia apertar suavemente a cestinha na mão, concordando comovida com o que ouvia, e prometi
- Sim, cuidarei.
Ela prosseguiu,
- Agora, me despeço. E, como despedir-se é fazer o que falta ser feito, peço-lhe só mais uma coisa...
E me estendeu a mão esquerda que abrigava na sua palma outra minúscula cesta:
- Primeiro eu lhe dei os meus filhos. Agora lhe entrego minhas filhas: as noites. Rogo para que cuide, com todo carinho e zelo, dessa outra parte do meu útero, pois ele está em trabalho de parto, a hora mais escura se aproxima, a noite que conclui o último dia do ano se vai e a noite que traz N’Ovo ano no seu amanhecer já está nascendo...
Em minhas mãos, as duas cestinhas se fundiram numa só. A imagem Dela e Sua voz foram ficando distantes. Um estalido no chão e novamente, pela janela, as folhas com o vento. A mais escura das horas chegou anunciada pelas doze badaladas do relógio. Acendi a vela, reverenciei o mistério daquele momento e murmurei para pequena noite que acabava de nascer,  
- Seja bem vinda, seja bem vinda!...
       Reclinei a cabeça no travesseiro e andando pelas terras de Morfeu sonhei que era 31 de dezembro em meu quarto... 

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

NÚmEROS


Sou uma mulher acinquentada casada com um homem asessentado. Temos um casamento atrintarado! 

entend'Eu?


quarta-feira, 15 de outubro de 2014

sobre mães e jacarés na psicanálise


"Toda mãe, seja ela boa ou má, é um jacaré com a boca aberta."

Essa frase quem disse foi o meu analista. E disse sem paixão, sem qualquer traço de sentimento algum. Apenas me dava uma informação. A minha resposta foi: e eu me sinto dentro da boca do jacaré, sendo triturada pelos seus dentes...
Terminamos a sessão. Fico imaginando como seria continuarmos nós três, ali, por muito mais tempo. Saímos nós dois, o jacaré e eu. 
O jacaré ocupava toda a minha cabeça.

...  

...Silêncio...
? ? ?   
!!!!!

E o jacaré lá. Com sua imensa boca aberta. No meio da minha cabeça. O centro das atenções dos pensamentos que vieram em multidão para vê-lo. E cada um falava uma coisa. Muitas coisas foram ditas. Das mais absurdas às mais sábias. O primeiro pensamento que chegou foi:
- Meniiina, ele chamou sua mãe de jacaré !...
E logo a conversa entre meus pensamentos e ‘eu mesma’ seguiu animada dentro da minha cabeça:
- É, e chamou a dele também!
- Viu aí? Você chorou tanto na sessão que ele detonou logo todas as mães...
- É isso mesmo: são todas uns ja-ca-rés!
- E você chorando e sofrendo tanto por causa de um jacaré?!
- O jacaré está de boca aberta, você só entra se quiser...
-...ou se não o vir a tempo de escapar.
- Viu? Ele abriu a boca do jacaré e deixou você sair.
 - É. Você não se sentia prisioneira e esmagada na sua relação com sua mãe ? Esse jacaré de boca aberta abre tantas possibilidades...
- É verdade, aaaai, que alííívio!
- Mas eu gostei mesmo foi que ele chamou toda mãe de jacaré! Adorei! Vou fazer uma musiquinha:
Minha mãe é um jacaré-é-é.
Nina, nina, niina.
Jacaré-é-é.
Lá lá lá láá lááá lá.
- Quer parar de criancice e ver que essa fala recolocou a relação com sua mãe?
- Foi, abriu possibilidades. Eu posso me relacionar com a pessoa que é minha mãe. Hoje sou uma mulher adulta, posso me cuidar. Posso escolher como me relacionar. Escolher estar mais perto ou distante de quem eu quiser, a distância confortável. A boca do jacaré está aberta e estou diante e não dentro dela !  
- Sim, mas e aquela sua fala: 'Não sou pura. Tenho ímpetos de mistura.' ?
- Pois é. Um jacaré, com o bocão aberto é, ao mesmo tempo, uma ameaça e um convite a entrar.
- Que mania de se aproximar de tudo! Tem coisa que é prá ver de longe, criatura!
- É verdade. Até já estou com a síndrome que ataca depois dos 40: a síndrome do braço curto.
- A essa altura até sua vista está lhe dizendo prá se distanciar e ver melhor.
- Sim, e por falar em ver melhor, não tem uma coisinha que você está esquecendo?
- O quê? Que prá ficar esse tempo todo de boca aberta o jacaré só pode ser empalhado? Hehehehe!
- Não, engraçadinha. Você não se deu conta de que você também é mãe? Ele te chamou de jacaré também!
- Xiii, é mesmo...
- E eu como mãe?... Acho que com a entrada de meus filhos na adolescência, estou começando a abrir a boca e soltá-los... Mas o bocão parece que vai ficar na espera....
- Gente!? E eu que achava que a mãe era um mamífero!
- O analista disse que elas são répteis...
- É, mas não dá prá negar o aspecto mamífero da mãe.
- Seriam as mães uma mistura de macaco com jacaré, uns macarés
- Que bicho danado esse jacaré! Ele fica com a boca aberta, mas sou eu que estou tentando digeri-lo: primeiro ele era minha mãe, em seguida, a mãe do meu analista, depois todas as mães e, como se não bastasse, agora sou eu!
Eu, hein?! Sai pra lá, jacaré.

(Esse texto foi escrito em 2003. )

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A palavra vale sem o celular?


Terça feira à noite um amigo disse que hoje viria almoçar na minha casa. Providenciei almoço especial. Ao meio dia de hoje, liguei pra ele. Tinha se esquecido. Desconfiei que não viria porque não tinha me ligado pelo celular depois de terça feira. 

Há umas duas semanas, combinei com uma amiga que lhe emprestaria meu frequencímetro (aquele negócio de medir a frequencia cardíaca enquanto a gente malha). Quando fui ao seu encontro, levando o tal o frequencímetro, ela já tinha comprado o seu e não me avisou que não precisava mais. Essa foi a segunda vez. A primeira, pediu faca de presente de aniversário e quando, já na loja, liguei pra ela pra escolher qual a de sua preferencia, ai fá, já ganhei as facas e esqueci de avisar...

Bom, tirando a hipótese de que não sou importante pra meus amigos, tenho visto cada vez mais a palavra dita, antes de chegar ao ouvido de quem escuta, já sair da boca de quem fala com prazo de validade vencido. O que se fala são só palavras nada mais que palavras? Gente, sinto-me tão minoria nesse mundo em que o combinado só vale com o carimbo de uma ligação ou mensagem de celular pra confirmar o que foi dito pessoalmente...  Cadê a memória e a consideração pela palavra dada? Ou a consideração pelo outro que ainda acredita em nós?

Mas esses são só exemplos mais recentes... A palavra não vale? 

Quero começar um movimento: A palavra VALE (OURO!). Não vai dar? Avise pelo celular. Agora, combinou? Tá combinado! 

domingo, 20 de julho de 2014

Eis-Cada


São muitos anos de convivência. Os (quase) seis mais recentes - não quero usar a palavra últimos - em cidades diferentes. Em cada re-encontro descubro, com minha visão cada vez mais acurada pela velhice - sim, não estou falando da visão que mora nos olhos da cara... - , novas coisas sobre o conviver. Minúsculas revelações. Descobri que morando sós vamos ficando com algumas manias. Uma delas é fazer as coisas exclusivamente do nosso jeito... Aí... esta semana ele veio passar o final de semana. Ia mandar umas coisas pra a mãe que mora em outra cidade. Correios: aí vamos nós. E a caminho dos correios vieram os nós. Paralela Shopping. Estacionamos o carro. Rolamos escada a cima - escada rolante, gente. Chegamos ao andar dos correios.  Ele carregando uma caixa gigante. Eu sabia o caminho mais próximo. Ele sabia por onde queria ir: sempre em frente. Eu, achando que o melhor era conduzí-lo para que não carregasse tanto peso por tanto tempo, indiquei um atalho pela esquerda. Ele deu uma rosnadinha, deixa eu ir por aqui... Um pedacinho de mim quis se ofender, mas só estou querendo ajudar... Pensei e não falei, já conheço esse alistamento espontâneo e automático no exército do inferno que mais cresce: os bem intencionados. Nisso, escutei uma vozinha falando no fundo de mim, se fosse eu, não ia por aí, ia por aqui. A velha pegou o microfone e, SE, SE, SE-FOS-SE-EU, não é você e você quer que ele faça do seu jeito? Como não ouvir? Ouvi e captei. Disse a ele que ia subir mais um andar pra cuidar da minha lista de tarefas no shopping, marcamos um ponto de encontro e nos separamos. Rolando de novo escada a cima lembrei de um antigo professor de matemática, duas linhas paralelas se encontram no infinito. Confiei! Dali a meia hora, descendo juntos as esCADAs rolou esse encontro e o infinito... 

sábado, 5 de julho de 2014

Escutando de n'Ovo


Nesta mesma época, no ano passado, meu pai vivia seus últimos dias. Estou um tanto nostálgica e me pego pensando e sentindo muitas coisas que não vou dizer de novo porque nada têm de novo. Vou 'pular' todas as cenas, menos uma. 

Era noite, fui com minha filha ao hospital. Ficamos bastante tempo na UTI com meu pai. Ele cheio de aparelhos pelo corpo e um tubo na boca que lhe ajudava a respirar e o impedia de falar. Ouvia bem e se comunicava com os olhos  e pelo movimento da cabeça - sim e não.  (isso parece tão pouco, mas quando só se tem isso... é tanto!). Bem tarde, saímos. O largo corredor do hospital era quase infinito com seu chão xadrez preto e branco. Andávamos de mãos dadas, mas cada uma na própria bolha de silêncio. Pensei em voz murmurada, o corpo é tão frágil... E minha filha respondeu, estava aqui pensando o contrário, como o corpo é forte e, apesar de tudo, meu avô está vivo. Concordei.  

De fato, meu pai estava vivo, muito vivo, embaixo daquele monte de fios, aparelhos bipantes, tubo, cobertores, daqueles braços paralizados, daqueles pés gelados e daquele barulho de fole da máquina de hemodiálise. Estava vivo e usava com toda sua força a possibilidade de nos olhar nos olhos e sacudir a cabeça num vigoroso NÃO quando alguém ensaiava o assunto do 'descanse em paz'. 

O que pensei em voz murmurada, no corredor de chão xadrez, não falava de meu pai. Falava de mim, e do extremo cansaço que tomava meu corpo. Talvez, apesar de tudo, meu pai estivesse mais forte e mais vivo que eu. Hoje, nostalgicamente relembrando, escutei isso na fala de minha filha. E concordei. Novamente. 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Que tal meu cabelo?

Na idade em que estou já aprendi que nem sempre os olhares sobre uma mesma coisa vêm a mesma coisa. 
Exemplo? 

Gosto dos meus cabelos em desalinho. Cacheados, pentear é desfazer os cachos. Detalhe, assanhados valorizam os cachos; quanto mais assanhados tanto mais bonitos. Bizarrices de Fátima... 

Bom, outro dia fui buscar meu filho no inglês e estava do jeito que me gosto. Sem que nem pra quê, virei pra ele e perguntei, que tal meu cabelo? Ele, que puxou ao pai na extrema sinceridade, mãe, seu cabelo tá parecendo o de Sylvester Stalone nas últimas cenas do Rambo depois que ele já lutou com todos os inimigos, e atravessou todos os rios, florestas, montanhas, pântanos e zonas minadas. O impacto foi tal que só, ... ôôô, meu filho! Claro que comecei a me olhar no espelho retrovisor já contaminada com o que tinha ouvido. Depois de umas quatro olhadelas, o ‘assanhado’ – que era só um detalhe pra valorizar os cachos – virou o protagonista da cena. Meio reflexiva, pensei em voz alta, é... é... o cabelo está um pouco assanhado demais... Estava crente que o poço de sinceridade, sentado no banco de trás, estava distraído e nem tinha escutado. Engano e ilusão. Mal fechei a boca depois da rendição e ele deu o xeque-mate com esta pérola, a verdade demora um tempinho pra fazer efeito...Caímos na gargalhada.

(esse texto foi revisado pr'este blog, mas é antigo. os filhos ainda eram pequenos. Continuam sinceros  - o pai, o filho e a filha - e ainda rimos dessas entradas tão francas)

terça-feira, 24 de junho de 2014

Revelações de um cabelo nu


Adoro cabelo grande. Meu cabelo cobrindo minhas costas como um terno abraço é uma companhia. Também gosto de cabelo com volume, meio despenteado. Pintava de vermelho. Um dia, uma decisão: vou deixar meu cabelo nu. E deixei. 

Ah, ouvi cada coisa enquanto o branco foi aparecendo e percorrendo aos poucos o caminho da raiz até as pontas. Considerei escrever um livro com o que ouvi. E era sugestão pra cortar bem curtinho, um corte transado, prender assim ou assado, fazer umas mechas coloridas, usar um shampoo azul pra cabelos brancos. Isso quem me sugeriu tinha o cabelo completamente azul e discordava quando eu dizia que o shampoo azularia minhas madeixas, não azula, não, nem-se-pre-o-cu-pe!, já uso faz teeempo e meu cabelo nunca azulou. A criatura dizia isso e apontava triunfante pra a própria cabeleira anil anil. 

Afinal, todo grisalho. Cinco anos se passaram até a completa nudez. Vou pular a parte de gente me sugerindo o que fazer, gente perguntando por quê, gente elogiando e gente em campanha pra eu voltar a tingir. 

Vou direto pra um episódio específico que é um pouco de cada coisa e mais um tantinho. Meu pai adoeceu seriamente e precisou ser internado. Um cardiologista foi vê-lo na emergencia do hospital. Depois da alta, fomos à sua clínica. A consulta de meu pai durou dez minutos. Os outros trinta minutos dentro da sala foram gastos no diagnóstico enfático de que eu estava deprimida e precisava de anti-depressivos. Uma mulher com o rosto tão jovem e esse o cabelo branco? Depressão. De cara achei que ele estava brincando. Contra-argumentei, mostrei unhas pintadas cada uma de uma cor. E ele, firme na indicação. Eu disse que estava escrevendo num livro as impressões sobre o cabelo, e colocaria a opinião do doutor entre as pessoas que votavam contra a grisalhez. Mas o cara estava sério, convencido do que dizia e realmente 'querendo ajudar'. Apelou para o suposto desinteresse sexual masculino. E seu marido? Caí na besteira de dizer que meu marido curtia. Tem um mentiroso em casa! Bom, era melhor sair logo antes de ter de pagar por duas consultas... Mas, naquela consulta, descobri com mais clareza uma coisa.

Gente, descobri o poder de um cabelo nu: ele desnuda o que vai na cabeça das pessoas. Por dentro!



segunda-feira, 23 de junho de 2014

JUNTOS

Há muito tempo atrás, juntos nos sentamos numa sala de aula e 
Você era um gesto que afastava a cortina de cabelo dos olhos
E eu era um vestido cor de rosa que revelava mamilos cor de rosa.
Juntos fomos ao cinema e choramos
E você, hesitante, já no final do filme, segurou minha mão.
Juntos fugimos para praias distantes
E andamos clandestinos pela areia.
Num dia de São João, na roça, banhados de chuva, dissemos ‘Sim’ um ao outro.
Juntos compartilhamos olhares, beijos, abraços, segredos,
Pedaços de silêncio, histórias inteiras,
Pedaços de história, silêncios inteiros e saquinhos de pipoca.
Juntos engravidamos, parimos e amamentamos nossos filhos
(Você esteve sempre tão perto que nunca me senti só)
E, quando eles adoeceram, juntos velamos noite adentro o soninho inquieto deles.
E, quando sararam, juntos respiramos cansados e aliviados.
Juntos já tivemos ataques de riso descontrolado e incontrolável.
Juntos já escalamos, num dia geladíssimo, uma montanha alta e enlameada.
Juntos já sonhamos tantas coisas, já planejamos e realizamos muito.
Já inventamos coreografias malucas e nos divertimos com a nossa dança.
Já fomos atrás do trio elétrico.
Juntos descobrimos o corpo, o gosto e os pequenos detalhes um do outro
(E há tanto mistério ainda!)
Juntos percebemos como são grandes nossas diferenças.
Descobrimos que cada um tem seus segredos e seu caminho único, e respeitamos isso.
Juntos construímos uma família gostosa de conviver e pertencer.
Juntos já adotamos jabutis, periquitos, cachorro e gatos.
Vivemos a inusitada situação de ajudar o veterinário a vermifugar nossos cinco jabutis,
Lembra?
Juntos caminhamos pelo parque e sempre atravessamos a rua de mãos dadas.
Juntos já fizemos fotos eróticas num quarto de hotel em Paris e planejamos
gastar os últimos créditos do cartão telefônico internacional passando trote para
alguém em Portugal ou na Suíça e rimos da nossa própria maluquice.
Juntos já saímos à noite para procurar uma sopa quentinha em Barcelona
Comemos gulosamente croissants nas panaderias de Madri
E você não saiu correndo, como teve vontade, quando entrei de roupa e tudo
Numa praia fluvial, cheia de gente, na Galícia.
Juntos já nos dissemos e nos fizemos coisas muito dolorosas
E aprendemos a cuidar e proteger a sensibilidade e a fragilidade um do outro.
Aprendemos também que o amor não é cego, é generoso
E o ‘para sempre’ não é tempo bastante para o nosso desejo de estarmos
JUNTOS!

(Era São João, e a festa foi na roça de meus avós - 'Seu' Antero e D. Maria. 30 anos hoje. Compartilho poeminha escrito em 2005. Casamento é uma maluquice e só tem sentido por causa do Amor) 

domingo, 22 de junho de 2014

Atenção: não recomendado para mulheres com menos de 45 anos nem para homens em geral - cenas fortes


Envelhecer tem me pedido despedidas. E lá vou eu de funeral em funeral de antigos eus, rosto, músculos, pele, mucosas, elasticidades, cabelos, unhas, projetos, habilidades, preferências. Meus próprios funerais, aqueles solitários que só a gente sabe e só a gente comparece. 

Não vou defender que envelhecer é lindo, nem que é a 'melhor idade' (essa expressão é o botox da palavra velhice). Também não vou desfiar um rosário de queixas e destilar amarguras. Vou dizer é que tomei umas decisões. Deixar que descanse em paz quem já não mais posso ser, e/ou aparentar, e receber de braços abertos - com um pouquinho de medo, alguma negociação e um montão de humor - aquela que vai aconTecendo em mim. 

É, gente, a velha se tece e me tece. E lhe dou corda. Altos papos. Ela me diz coisas óbvias nunca antes vistas, chapeuzinho vermelho foi devorada porque não conhecia o lobo? nã-nã-nim-nã-não, a chapéu não conhecia era a vovozinha, isso sim. 

E a velha me afastou do vermelho-menstruação e trouxe a menopausa. E não me deixou à mercê da 'medica-má'. A ginecologista que, diante da minha decisão de não usar hormônios, soltou o verbo sobre o que aconteceria com minha 'parte íntima': se não usar hormônio sua libido vai baixar, e 'ela' vai descorar murchar e secar. TÓIM! Nocaute. Saí do consultório nocauteada. Pensava que as mudanças eram só de humor, alguma deprê, talvez. Mas, era além. Já no carro, a meio caminho de casa, a velha ergueu seu dedo indicador e bradou, Pornografia! não seremos clientes de farmácia ou laboratório, mas de sexshop: vamos à pornografia! TÓIM-ÓIM-ÓIM! Hmmm, melhor escutar as duas e negociar com as duas. Visitei algumas sexshop's e resolvi usar um pouquinho de hormônio, pois a profecia da médica causou. 

A velha também me alerta pra duas coisas, 'vão-se os anéis e ficam os dedos' é fala de quem tá vivo, porque - tirando as múmias - o que fica mesmo são os anéis; e, outra coisa, já que 'a morte faz parte da vida', aproveite sua vida enquanto é a morte dos outros que faz parte dela. Nada de perder tempo com lamúrias. E me dá aula de gargalhada. Gargalhada de bruxa. E me pego chorando e sorrindo nos funerais. Nos meus (im)próprios e nos dos outros. 

Tenho pra mim que essa velha nascendo desse jeito é parente de minha finada vó Maria, a risada é a mesma... a low-cura também. E lá vamos nós e não vamos sós! 

sábado, 21 de junho de 2014

Num3r05 e Palavras

Palavras são diferentes de num3r05. Com as primeiras a ordem dos fatores muda completamente o resultado. Quer ver só?
"Rapadura é doce. Mas não é mole, não!"
"Rapadura não é mole, não! Mas é doce." 

sexta-feira, 20 de junho de 2014


Kenzo (foto de Lila Ferradans)

ferida e praga

Cambaleante e deixando um rastro de sangue ele entrou na cozinha. Caiu aos meus pés. Era a TERCEIRA vez que acontecia. Com ele desmaiado nos meus braços saí, olhei pra cima, espalmei as mãos na direção do céu e praguejei: se foi arte de gente, eu desejo que quem fez isso seja atingido da mesma forma que atingiu, que tenha o corpo lesado. E tem mais: quero saber quem foi. Quero ver a pessoa passar na minha frente ferida e sofrendo! Acabei de falar, cuspi na terra e entrei no carro. Veterinário, aí vamos nós.  

No caminho, São Francisco e Nossa Senhora passem à frente e limpem este engarrafamento. Eficientes, como sempre que preciso muito, eles abriram caminho. 

Na clínica, Kenzo de novo?!! D. Fátima, a senhora não acha melhor tirar logo o rabo deste gato...?, Doutor, o senhor não repita isso! O médico se retirou pra salvar o gato e o rabo.

Esperei o fim da cirurgia me perguntando como aquilo tinha acontecido. O rabo cortado ao meio, ao longo do comprimento. Até parecia um gato com dois rabos. Só uma vizinha tinha implicado com os gatos. Será que...?

Costurei o melhor possível, mas se necrosar... a senhora traga que não lhe cobro a amputação. Esse médico quer entrar na fila dos praguejados?!, só pensei, não disse. Puta da vida, fui ver meu querido que ferido ficou ainda mais querido. 


Curativos e curativos depois, o rabo já começava a nascer pêlo. Um dia, saindo pra comprar ração, dei de cara com a vizinha descendo do carro, toda encurvada, com um soro no braço, andando mal e tropegamente. Con-ge-lei. Ela não me viu atrás do vidro fechado do carro. Muda, só consegui murmurar, foi ela e a praga pegou! Oscilei entre arrependida e vingada. 

Depois de Kenzo correndo como louco pela casa e rodando o rabo feito um chicote, me arrependi muito de ter praguejado. Coitada da vizinha. Coitada...

Outro dia, encontrei de novo com ela, já recuperada e bem disposta, como Kenzo. Mais perto do arrependimento, falei, oi vizinha, vi que você andou doente... E ela, não, fiz uma lipo.
                                             
                                                     hÃ?!


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Tem coisas que a gente só consegue dizer com a absoluta garantia de que ninguém vai ouvir...

quarta-feira, 18 de junho de 2014

a-e é?


A todo custo há que se fazer subir a tal da auto-estima. Como assim, querida, você não tem auto-estima?! Então você precisa Urgente de: lingerie nova, book de fotos eróticas, celular último modelo, uma ida ao salão de beleza, às lojas de roupa, sapato, ao spa,  ao cirurgião plástico pra sair de lá com cara n0va, peito novo, bunda nova, barriga chapada e as partes íntimas re-paginadas e re-virgiNADAs. Isso, só pra começar.  

E é tanta coisa. Em nome da conquista da auto-estima a gente vai se expondo a situações bizarras. A gente não deve, e nem quer!, se parecer com a gente, seja lá o que isso seja. É preciso fazer desaparecer qualquer vestígio do que nos caracteriza e não conste na tabela da moda da beleza atual - sim, porque a tabela muda... 


Não sei você, mas já vi gente 'da auto-estima lá em cima' se achando o caminho a verdade e a vida e humilhando os outros, e exigindo indevidos direitos, perdendo a noção de respeito a si mesmo e ao outro. 

Respeito? Hmmmm.... talvez este seja o tempero que está faltando nesse prato. Um interessante contra-ponto à febre do 'tem que elevar a auto-estima'. Ai, gente, dá licença! Mais respeito ao nosso fracasso, à nossa feiura, infelicidade, ao não estarmos na moda. Respeito, inclusive, à nossa baixa auto-estima. Respeito.


terça-feira, 17 de junho de 2014

já aconteceu com você?


Hoje tem jogo de copa do mundo. Daqui a pouco, o Brasil vai jogar com e contra o México.  Toda vez que o Brasil joga me lembro de minha avó. Não, ela não gostava de futebol e nem tinha paciência pra ver jogo na tv. E o que me lembro é algo completamente irracional e subjetivo, que achei um absurdo quando ouvi ela dizer. Mas............descobri que também sou absurda (que novidade, tsc,tsc,tsc). Deix'eu contar.

Quando era adolescente, morei um tempo na casa de meus avós. Com eles também moravam meus dois tios cegos. Um deles, todo final de semana levava amigos e namorada para almoçar por lá. Minha avó não gostava, mas nada dizia na frente do filho. O caçula! Um domingo, depois do jogo de futebol com sua turma  - sim, cegos jogam futebol com uma bola cheia de guizos e já fui goleira nesses jogos - meu tio convidou os amigos pro almoço. O pirão de D. Maria! Mas, não é trabalho pra a senhora?, perguntavam os amigos. Que nada meu filho, ela respondia. E o almoço era aquela comilança, pois domingo era sempre dia de visita pra almoçar e mesa farta. Acabado o almoço, a namorada de meu tio ia pra a cozinha lavar aquele monte de louça e panelas. Meu tio impaciente, deixa isso que minha mãe lava. E a namorada ia lavando enquanto o peraí, já vou, tinha algum poder sobre ele. Mas a paciência acabava e quando a briga ia começar ela terminava a lavação. Digo, dava por terminada e saía. Assim que fechavam o portão, minha vó aparecia na cozinha. Furiosa, aquela preguiçosa, largou tudo sujo! Eu, perplexa, mas vó, você não viu que ela tentou lavar e ele não deixou?! Então, D. Maria soltava sua pérola, eu vi, mas vou ter raiva de meu fio? eu tenho raiva é dela!

Pois, é assim com jogo. Não importa como jogue, aliás, quanto pior jogar a seleção, mais quero que ganhe. Vou torcer contra o Meu Brasil?!  

juntAndo


Quero a escrita compartilhada: meu desejo, quando pedi ajuda pra criar este blog. E ele nasceu fruto de gente se juntando pra algo aconTecer. Meu irmão (*) numa cidade longe daqui, meus filhos (**) em paises bem longe daqui, e foram eles os auxiliares de parto para este nascimento!  Minha imensa e eTerna gratidão. 

Você que aqui chega, seja bem vindo! Grata por me ceder um tempo de sua vida nesta leitura. Os escritos aqui são nOssos. 


Já matei muitos textos. Alguns, depois de nascidos, outros, antes de nascer. Os que aqui estão são os que não consegui... Os que você gostar, leve!

(*) www.getro.com.br
(**) Lila Ferradans
(**) www.tferradans.com/blog